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quarta-feira, 9 de junho de 2010

Silêncios Irrotuláveis ...

É impressionante a dificuldade que as pessoas tem de presenciar, se presentear, viver o silêncio.

Presenciá-lo, e mantê-lo é difícil há um medo surdo do silêncio, e viver com tranquilidade em meio a este mar ruidoso, é um verdadeiro desafio.

Fala-se alto, anda-se apressadamente, bate-se porta, qualquer porta, a do armário, do carro, a de casa, do elevador, a do coração, e a do conhecimento.

Observo que o maior inimigo do silencio é a ansiedade que pressupõe a pressa.

Nao se tem tempo para conversar, para olhar, para ouvir, para observar sinais , e assim, vamos perdendo referenciais valiosos, que poderíamos ter em uma conversa , fitar e escutar momentos preciosos, sentir o som da voz interior que constroe o nosso conhecimento, e por que não, a nossa própria capacidade de entendimento, interação e respeito mútuo com o nosso interlocutor.

Despertamos com barulho, passamos o dia com ele e dormimos até com a televisão, radios ligados.

Fico me perguntando o que todo mundo tem medo de perder, que ainda não perdeu, por que se corre tanto ?

O tentamos preencher com todo esse barulho?

Pessoas que sabem realmente o que querem, para onde estão indo, quase nunca estão correndo, não são ruidosas, elas não tem que mostrar eficiência, já o são, ao menos sabem onde querem chegar...

Calmamente.

Quando passamos correndo pelas coisas e situações , damos uma impressão estranha de que nos perdemos no caminho, e que precisamos a todo custo nos reencontrarmos, e preferencialmente fazendo bastante barulho, para sermos percebidos, dando assim a falsa impressão de que somos lideres, pois assim não seguiremos sozinhos.

Estamos perdidos ?

Com certeza nem todos, mas ao que parece , para entrarmos em contato com nós mesmos, precisamos de tempo, silêncio, paciência, generosidade, e um bocado de coragem, demanda principalmente gentileza para conosco, saber que podemos errar mas que sempre podemos aprender.

Por que atualmente, quando vemos alguém andando devagar, olhando com muita atenção em nossos olhos, ou em silêncio escutando calmamente o que temos a dizer, com a boca fechada, os ouvidos atentos ao que estamos falando sem demonstrar pressa e com um interesse genuíno , se passa algo estranho conosco.

Em primeiro lugar por causa da surpresa que nos causa o encontro com um bom e silencioso ouvinte, um misto de identificação, alegria até, por nos depararmos com um igual, sentindo que este é um raro momento.

Por outro lado, o escontro diário de pessoas que não sabem ao certo sua direção, que estão apressadas e ruidosas, com outras que estão saboreando o momento silencioso, lento, mais imútável, desperta um sentimento de perturbação em relação a esta última.

Normalmente os silenciosos são rotulados, gentilmente de alinenados, por outras vezes chamados sutilmente de estranhanhos,e os mais enfáticos chamam de velho, esquisito, estranho, ultrapassado.

Conheci pessoas, que pelo seu comportamento silencioso auditivo e contemplativo, eram até temidas por seu comportamento diferenciado, e por vezes excluídas do convívio comum, dos convites.

Nem sempre excluímos somente as pessoas inconvenientes de nossa convivência, mas também aqueles que provocam em nós constante desafio de nos conhecermos, mediante seu comportamento tranquilo e sereno.

Quando ignoramos, desconhecemos algo, ou alguém, achamos uma inteligente justificativa para nossa acomodação mental, para nossa ruidosa posição.

O que pensamos ser uma saída inteligente, geralmente é o rótulo, a justificativa , e a qualificação das pessoas que por serem sensíveis, no olhar, no ouvir, e no sentir, nunca qualificam ninguém, são maravilhosamente irrotuláveis.

Entendo que a imobilidade é um dos vinculos da contemplação, justamente por que o entendimento demanda reflexão e um olhar silencioso, pois é este olhar que nos emudece, e nos remete para dentro de nós mesmos.


Mirhazt